ENTREVISTA
Ricardo Ramos Filho: o romance, o tempo e o pó da calçada
Aos 71 anos, neto de Graciliano Ramos lança ‘Toda poeira da calçada’, seu primeiro romance; livro transforma a cidade, a solidão e o cotidiano em matéria literária de resistência e permanência


“Escrever é também, um pouco, me rebelar contra a morte. Sei que um dia findarei, mas a indesejada das gentes não conseguirá levar com ela meus textos. De certa forma é a minha vingança”. Nas palavras de Ricardo Ramos Filho, a literatura se levanta como um gesto de permanência. Um compromisso íntimo com a vida, travado todos os dias com a ponta da caneta ou com os olhos fixos na tela. Aos 71 anos, ele acaba de lançar seu primeiro romance, Toda poeira da calçada (Patuá), e marca o feito como uma forma de desafiar a finitude, enquanto investiga, com delicadeza e melancolia, as curvas da memória, o cotidiano que se dissolve.
No novo romance, já à venda na Amazon e no site da Editora Patuá, a cidade de São Paulo, com suas ruas atravessadas por contradições, se torna parte da trama, do enredo emocional. É nela que o personagem caminha, observa, tropeça em lembranças e busca sentido nas migalhas do dia. Com linguagem precisa e sem alardes estilísticos, Ricardo constrói uma narrativa sensível, em que o tempo se revela como um personagem invisível: uma espécie de presença fina, como o pó que se acumula quando ninguém presta atenção no que realmente importa.
A história é simples. Essa é sua força. Não há excessos, nem artifícios para contar a história de um sexagenário recém-aposentado que se vê diante de sua cidade, diante de si, do isolamento pandêmico e de tudo o que passou e do que talvez nunca venha. As coisas mudam depois que ele encontra um quadro na rua e decide ir atrás de quem o pintou. Escrito ao longo de cinco anos, entre dúvidas, recuos e persistências, Toda poeira da calçada é uma das obras mais autênticas da trajetória do autor.

Ricardo Ramos Filho já publicou cerca de trinta livros, entre títulos voltados ao público infantojuvenil e coletâneas de crônicas. É também professor de Literatura, orientador de escrita, produtor cultural e presidente da União Brasileira de Escritores. No entanto, talvez nenhum de seus livros anteriores tenha exposto tanto de sua sensibilidade e sua matéria íntima quanto este romance de estreia. Nem mesmo o ótimo Cidade aberta, cidade fechada (Record, 2023).
É também neste livro que Ricardo se apresenta em plenitude. Reconhece os ecos do avô, Graciliano Ramos, e do pai, Ricardo Ramos, dois gigantes da literatura brasileira. Mas não se limita a eles. “Sou neto, sou filho, mas principalmente sou eu mesmo”, afirma nesta entrevista exclusiva concedida à Gazeta de Alagoas.
GAZETA DE ALAGOAS. Você tem uma carreira consolidada com crônicas e literatura infantojuvenil. Por que agora um romance? O que motivou essa mudança de forma?
RICARDO RAMOS FILHO. A vontade de escrever um romance era antiga, mas sempre adiei a empreitada. Porque escrever romance é diferente, exige do escritor um tempo maior dedicado ao texto. Só para que se tenha uma ideia, demorei cinco anos escrevendo “Toda poeira da calçada”. Entre idas e vindas. Interrompi várias vezes, briguei com o que estava escrito, voltei, reli, gostei, para depois, lá na frente, recuar novamente. Assim, meio que me arrastando, conclui a obra. Custei a acreditar que conseguiria alinhavar um romance. Não foi fácil gostar do texto produzido. No final, contudo, fiquei feliz. Considero ter realizado um bom trabalho. A motivação maior foi experimentar a novidade. Escrever um romance seria caminhar em direção ao diverso em meu percurso. Valeu a pena!
Neto do Mestre Graça, filho do gigante Ricardo Ramos. De que forma essa herança literária influencia — ou desafia — sua escrita?
Eles estão, goste ou não, presentes. Surgem como ecos no que escrevo. Porque li o que escreveram. Li sabendo quem eram. Seria impossível não ouvir a voz deles. No final, ajudam mais do que atrapalham. Mas tenho que buscar minha identidade, estilo próprio, ou seria apenas cópia. Depois de mais de trinta livros publicados, creio ter conseguido. Sou neto, sou filho, mas principalmente sou eu mesmo.
O romance se passa em São Paulo, em espaços marcados por memórias, solidão e poesia. Que imagem da cidade você quis construir nessa narrativa?
O romance tem centro em São Paulo. Em um bairro de classe média. Seria impossível não ambientar minha história na cidade em que vivo, olhar as ruas caminhadas, as árvores, os pássaros, observo muito o entorno. Acabo mostrando a cidade que me abriga, com muitos contrastes. Ora feia, ora bonita. Triste e alegre. Cinzenta ou enfeitada por flores em determinadas épocas. Cidade que me provoca sempre. Temos uma relação quase conflituosa. Vivemos em choque constante. Mas nos amamos. Memórias, solidão e poesia fazem parte de nosso convívio.

Por que continuar escrevendo literatura? Em especial para o Brasil de hoje?
Porque para mim há na literatura uma relação cotidiana com a sensibilidade. A minha quando escrevo, a do leitor. Acredito que a leitura faz pessoas melhores. Possibilita, como consequência, um mundo melhor. Seria irresponsabilidade minha, já que tenho em mim a vontade imperiosa de escrever, abandonar tal chamado. A gente sempre é uma pessoa diferente após ler um livro. Mais humana, capaz de entender a diversidade. Tenho a mais absoluta certeza de que essa gente que está sendo julgada, por tentar golpear a democracia, pouco leu. Vive apartada dos livros. Nós escritores temos o dever de contribuir para a formação de um contingente de leitores. O Brasil de hoje precisa principalmente de educação, e de livros.
‘Toda poeira da calçada’ é apresentado como um “rito de passagem em palavras”. Que passagem foi essa para você? Foi também um movimento pessoal, íntimo?
Sem dúvida. Eu tenho com as palavras uma relação de amor. Quando consegui, na minha infância, ler sem precisar parar toda hora em busca de significados, entendi que havia dominado o mundo. Naquele instante me senti empoderado. Ler e entender o que está escrito nos possibilita. Ler e se encantar com o que está escrito nos tranquiliza. Haverá sempre um novo texto disponível. Eu vivo rodeado por estantes. Desde menino. A leitura é minha mais significativa herança.
Como foi passar por mais um dia 20 de março? E qual sua relação com a passagem do tempo? Isso mudou ao longo dos anos?
Viver os 20 de março foi sempre assustador. Sou a terceira geração de escritores da família. As duas primeiras deixaram o mundo em um 20 de março. É natural a desconfiança. Não viajaria de avião, por exemplo, em um 20 de março. Mas geralmente é um dia de lembranças. Penso em Graciliano, em Ricardo Ramos, faço lá minhas homenagens internas. Eu não tenho uma boa relação com a passagem do tempo. Acredito que ele já me roubou muitos afetos. Escrever é também, um pouco, me rebelar contra a morte. Sei que um dia findarei, mas a indesejada das gentes não conseguirá levar com ela meus textos. De certa forma é a minha vingança. Eu nunca aceitarei o meu fim, como não aceito o de ninguém. Sou ateu convicto. Saber que depois do ponto final não haverá outros parágrafos dói muito.

Mesmo sem uma abordagem panfletária, seu livro sugere um olhar atento ao mundo e ao que é importante. Você se considera um escritor político?
Sim. Sou muito preocupado com a política, obviamente tal olhar fica visível em minhas frases. Meu engajamento aparece no texto, mas, você tem razão, luto para não ser panfletário. Vivemos em um mundo em que o fascismo vem ganhando espaço, há uma direita muito canalha ganhando lugar de fala. Precisam ser combatidos. Afinal, eles andam abraçados com a morte, e eu desejo diariamente celebrar a vida.
E como tem sido a reação dos leitores até agora? Alguma resposta te surpreendeu?
Tenho o maior carinho por meus leitores. Basicamente, eles são a minha razão de viver. Sempre reagiram positivamente. Lendo, comentando, explicitando suas dúvidas, são minha gente. Eles me surpreendem sempre, porque nunca uma leitura é igual a outra. Aí está a beleza da literatura. Permitir esses olhares diferentes.
Quais autores contemporâneos você tem lido com atenção? Já pensa em um próximo romance?
Rafael Galo, Jeferson Tenório, Conceição Evaristo, Carla Madeira, Itamar Vieira Junior, Morgana Kretzmann, Nara Vidal, Marcelino Freire, Tom Farias, Maria Valéria Rezende, tem muita gente boa escrevendo no Brasil. Estou na metade do meu próximo romance, que será de memórias e tem provisoriamente o título de “Velha Casa”.
Para encerrar: o que você espera que o leitor leve consigo ao caminhar pelas páginas de “Toda poeira da calçada”?
Espero que tenha instantes agradáveis. Como já disse, ninguém é o mesmo após ler um livro. Pois que saia da leitura enriquecido. Mais sensível, refletindo sobre as relações humanas, e querendo ler outra obra. Eu sempre desejei que meus livros levassem a outros.