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DESPEDIDA

Augusto de Campos, aos 94 e pós-tudo, se despede da poesia inquieto e mordaz

"Pós Poemas" encerra em tom combativo trajetória poética de 74 anos

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Augusto de Campos se despede da poesia aos 94 anos
Augusto de Campos se despede da poesia aos 94 anos | Foto: Lucas Seixas/Folhapress

Principal escritor brasileiro vivo, Augusto de Campos lança seu último livro de poemas. Em entrevista, ele comenta os motivos da despedida, ressalta a importância de uma poesia que confronte os desajustes do mundo e lamenta a ascensão de uma direita autoritária internacional.

Na capa de "Pós Poemas", sua despedida dos livros de poesia, Augusto de Campos aparece no alto de rochas apontadas contra o céu, na Serra do Rola-Moça, em Minas Gerais. Em 1963, na fotografia feita por Lygia de Azeredo, sua esposa, o poeta tinha 32 anos, participava da Semana de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, e concluía a obra-prima "cidade".

Aos 94 anos, com um gestual não muito distante daquele do jovem do retrato, ele diz que o ponto final na criação poética não o afastará dos trabalhos de tradutor. "Sim, apenas traduções/interpretações. Poemas são gestações. Não dá mais pra mim".

O último livro reafirma a "poesia da recusa" e o desejo de intervir no mundo. Num arco de 74 anos, de "O Rei Menos o Reino" (1951) até "Pós Poemas", Augusto lançou duas dezenas de obras de poesia, a contar as edições do livro-revista "Noigandres", esteio do grupo concreto fundado com Décio Pignatari e seu irmão Haroldo de Campos.

Nascido em São Paulo, em 1931, o poeta publicou 17 livros de ensaios e revisões críticas, 43 de traduções e, desde 2018, 24 plaquetes de "extraduções" pela editora Galileu. Ele ampliou o repertório de vanguardas poéticas em língua portuguesa, ao verter para o idioma Mallarmé e Ezra Pound, Gertrude Stein e James Joyce, Sylvia Plath e Dylan Thomas, entre outros, e influenciou não só poetas, mas músicos, cineastas, artistas plásticos, jornalistas, ensaístas e críticos de arte.

O livro de despedida preserva a poesia como o núcleo de mudança da vida e o vetor de interpretação do mundo. Na introdução, afirma que "a poesia hoje é uma prática de gueto, de artífices desarticulados".

O poema final, o "Ex/isto" (1970) retirado do livro "colidouescapo", não é a sua última palavra, mas uma palavra dobrada em sua história - ex-tudo e pós-tudo, o poeta demarca sua permanência e seu silêncio. Duas joias de 2021, "poesia é o que" e "poeta gueto", entram no percurso autorreflexivo.

"Pós Poemas" tem seis seções. Os "contrapoemas" exprimem o confronto de Augusto com o fascismo em alta no país e o governo de Jair Bolsonaro, alvo de "omito" (2019), "já era" e "fora" (2022). O estímulo ao porte de armas, pautado pela extrema direita, surge em "educaixão" (2019).

Noutra seção, o poema "Vertade" (2021) contém uma travessia vertical entre verdade e mentira, com as fontes em verde e vermelho no fundo preto, refletindo a confusa fronteira de fato e ficção no mundo das fake news. "Pretende ser um poema anti-fake, de certa forma também participante."

No livro, o poema "imortais" satiriza a Academia Brasileira de Letras (ABL) e reforça a crítica histórica dos concretos ao oficialismo literário e à mística da "imortalidade". Em 2019, Augusto absorveu a estrutura de um anúncio empolado da instituição —"o acadêmico decano da casa/ entregou a espada/ o acadêmico/ fez a aposição do colar/ e o acadêmico/ a entrega do diploma".

"O poema é quase um ready-made, aproveitando um comunicado expresso da própria Academia. Que para mim é ‘de riso motivo’, como diria Gregório de Matos", diz Augusto. "Ready-made" é o gesto vanguardista de transpor um objeto pronto, preexistente, para a categoria de obra de arte.

"Clarice Lispector afirmou que não postularia a sua entrada na Academia porque se sentia mortal demais. Foi muito branda. Eu me sentiria mais morto do que vivo se fosse laureado com esse tipo de ‘imortalidade’”.

Em encontro em sua casa, no fim de 2024, o poeta recitou de cor trechos de poemas lidos na juventude. "O Lobisomem", de Décio Pignatari, ou "La Casada Infiel", de Federico García Lorca, ressurgiram de jorro.

Ele surpreendeu ainda ao apontar belezas em temperamentos poéticos diversos do seu, como ao elogiar um verso aliterativo do romântico Castro Alves —"Auriverde pendão de minha terra,/ Que a brisa do Brasil beija e balança".

O brilho da memória e a velocidade das ideias contradiziam uma blague dita ali sobre os empecilhos da longevidade: "Hoje, quem faz 60 anos tem 50. Quem faz 70 tem 60. Quem faz 80 tem 70. Mas quem faz 90 tem 90 mesmo".

Nos últimos meses, Augusto vem repetindo que o lançamento do último livro o deixa "quite com a vida", mas nada sugere o fim das inquietações intelectuais. Na parede de sua sala, um quadro com fontes fluorescentes se revela ao apagar da lâmpada:

"Poe

Sia

Con

Tra

Luz

Ler

Sem

Ver"

Foi levado à contracapa de "Pós Poemas".

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