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MÉTODO CONTRACEPTIVO

Planejamento familiar: laqueaduras e vasectomias disparam em AL

Gazeta ouviu casais que não querem mais filhos e se submeteram a procedimentos

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Imagem ilustrativa da imagem Planejamento familiar: laqueaduras e vasectomias disparam em AL
| Foto: Cortesia

O que há por trás da disparada dos números de laqueaduras e vasectomias realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Alagoas? A verdade é que planejamento familiar, liberdade para querer ou não uma prole e mais acesso aos métodos contraceptivos definitivos estão mudando o perfil dos lares alagoanos.

Tudo isso embalado pela nova lei de 2022 que dispensa o consentimento do cônjuge para a realização dos procedimentos e reduziu a idade mínima para a esterilização voluntária para 21 anos. De forma livre e responsável, é possível decidir no Brasil quantos filhos ter e em que momento da vida.

A Gazeta ouviu Alícia, Fabiano, Thamyres, José Carlos e Débora, que têm idades entre 20 a 43 anos. Eles decidiram pelo método contraceptivo definitivo, possuem histórias de vida diferentes, mas que se assemelham num ponto: preocupação com o bem-estar da família.

Entre os anos de 2023 e 2024 o aumento do número de laqueaduras foi de quase 84% (subiu de 249 para 458) e de 54% de vasectomias (aumentou de 50 para 77). Em 2025, já foram 119 e 19 procedimentos, respectivamente.

Esses números referem-se a procedimentos realizados pelo SUS em unidades mantidas pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesau): laqueadura (Hospital da Mulher e Hospital Regional do Alto Sertão); vasectomia (Hospital Metropolitano, Hospital Regional da Mata e Hospital Regional do Norte). Já pelo Município, os procedimentos ocorrem no Hospital da Cidade, em Maceió.

José Carlos e a família
José Carlos e a família | Foto: Cortesia

POR QUE DECIDIRAM NÃO TER MAIS FILHOS?

O motoboy Fabiano Henrique tem apenas 28 anos e é pai de cinco filhos, fruto de três casamentos. Com tamanha responsabilidade, passou a discutir com a companheira a possibilidade de não ter mais filhos, principalmente por questões financeiras. E então decidiu fazer a vasectomia, realizada em janeiro deste ano no Hospital Metropolitano.

“Para não arriscar de ter outra criança no momento, decidimos que eu faria uma vasectomia. Era uma coisa que eu já vinha pensando antes. Fiz todos os procedimentos que deveriam ser feitos até o dia da cirurgia, que foi muito tranquila. Foi muito rápido, um procedimento simples. Eu não teria condições de pagar e graças a Deus consegui fazer pelo governo”, lembra Fabiano Henrique de Lima Rodrigues, que mora no Conjunto José Tenório, em Maceió.

Débora e a família
Débora e a família | Foto: Cortesia

Com 20 anos, Débora é casada, tem dois filhos e espera conseguir fazer a laqueadura ainda este ano. “Pensei em fazer a laqueadura depois do segundo filho. Tive um aos 16 anos e o outro com 18. Aos 20 anos eu decidi fazer a laqueadura. Fui mãe cedo e já tenho um casal. Ainda não fiz o procedimento, estou apenas esperando a idade”, conta Débora, referindo-se aos 21 anos, idade mínima autorizada para realizar o procedimento.

Débora conta que o fato de já ter dois filhos e uma renda baixa para sustento familiar, optou pelo método. “As condições estão mais difíceis e para educar uma criança não é fácil, exige muita dedicação e paciência. Meu marido também não quer mais filhos. Também pretendo ter mais tempo para terminar meus estudos”, disse Débora Borges, mãe de Heloíse e Davi Lucca.

Alícia e a família
Alícia e a família | Foto: Cortesia

PELO BEM DA FAMÍLIA

José Carlos, morador de Arapiraca, fez a vasectomia no Hospital Metropolitano de Maceió. “Resolvi fazer por conta de já ter 3 filhos, mas o motivo maior é porque minha esposa tomava anticoncepcional e isso estava prejudicando ela, com distúrbios hormonais. A gente sentou e conversou e resolvemos juntos que para o bem da saúde eu deveria fazer e também não pretendia ter mais filhos”, declara Carlos.

O servidor público lembra do processo que teve de percorrer até o procedimento cirúrgico. “Depois que eu e minha esposa conversamos, entrei em contato com o hospital, passei por todos os trâmites, passei por todos os médicos e psicólogo, até chegar o dia da cirurgia. Tinha brincadeira e piada dizendo que ficaria impotente, mas a gente já tinha se decidido e pelo bem da família fiz a vasectomia e me sinto muito bem”, conta José Carlos da Silva, de 43 anos.

Thamyres Fidélis, 37 anos, é mãe de dois filhos: um rapaz de 17 anos e uma menina de 2 anos. “Durante a minha última gravidez eu decidi fazer minha laqueadura por causa da minha idade, que eu achava e ainda acho que até os 35 anos está bom para gerar filhos, porque depois pode ter vários fatores que podem levar a uma complicação", avalia.

Ela conta que fez todos os exames, depois foi para uma assistente social e em seguida marcada a cirurgia. “Foi uma cirurgia supertranquila, não tenho do que reclamar. Estava com medo, mas graças a Deus correu tudo bem. Hoje tem seis meses que estou laqueada e recomendo a laqueadura porque de todos os métodos contraceptivos é a mais eficaz”, diz Thamyres.

Alícia Almeida Pereira foi submetida à laqueadura em dezembro do ano passado, no Hospital da Mulher, em Maceió. Ela tem 24 anos, passou por três cesáreas e tem dois filhos. Um deles morreu, nasceu com hidrocefalia e só resistiu por um dia, situação que machucou Alícia e a fez temer engravidar novamente.

“Foi a melhor escolha que eu fiz foi fazer a laqueadura. E, graças a Deus, já tem três meses e eu estou ótima. Eu escolhi fazer a laqueadura por conta que eu já tive três cesáreas e tenho dois filhos. O meu segundo filho tinha problema e não resistiu”, lembra Alicia, que mora no bairro Ponta Grossa. Ela conta sobre a dificuldade de manter financeiramente os filhos e que temia engravidar.

“Hoje em dia está cada vez mais difícil criar filhos. Moro com meus avós, eles me ajudam muito. Tenho uma menina de 8 anos e um menino de 3 anos. Tenho um esposo, que estamos juntos há dez anos, ele trabalha, é assalariado e eu também. Minha primeira filha e o meu terceiro filho, graças a Deus, não têm problema, mas eu poderia correr o risco de ter o quarto filho e ter malformação como aconteceu”, conclui Alícia Almeida.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

“Na verdade, essa mudança vem ocorrendo em nível nacional. Esse aumento exponencial deve-se, primeiramente, à alteração na Lei nº 14.443, sancionada em setembro de 2022. A cirurgia de vasectomia é um procedimento simples, que não demanda muito tempo, é realizado com anestesia local, com ou sem sedação, e permite que o paciente retorne para casa no mesmo dia. Esses fatores facilitam a decisão do homem em optar por essa intervenção”, destaca Lavínia Tenório, biomédica e coordenadora da Gestão da Qualidade no Hospital Metropolitano de Alagoas.

Lavínia Tenório lembra que, atualmente, o método contraceptivo masculino eficaz mais utilizado é o preservativo. Diferentemente das mulheres, que, em sua maioria, optam por utilizar pílulas anticoncepcionais ou injeções, métodos que podem trazer diversos efeitos colaterais ao organismo, como aumento de peso, náuseas, enjoos, dores de cabeça, risco aumentado de trombose e diminuição da libido, entre outros.

Considerando a gama de efeitos que podem ser nocivos à saúde da mulher, o interesse no controle reprodutivo e o desejo do casal em planejar a quantidade de filhos que pretendem ter, a vasectomia tornou-se, atualmente, a escolha de muitos homens.

“Mesmo sem necessidade individual, muitos homens decidem em conjunto com suas parceiras, levando em conta a praticidade, a ausência de efeitos colaterais significativos, a não interferência na saúde sexual e o fato de ser ofertada integralmente pelo SUS. Portanto, a oferta gratuita pelo SUS, essa escolha se torna ainda mais acessível, contribuindo para o aumento expressivo do número de procedimentos realizados em Alagoas”, finaliza a biomédica.

A médica ginecologista Camilla dos Anjos acredita que o número crescente de laqueaduras no âmbito do SUS deve-se à possibilidade de acesso mais fácil a esse procedimento, além do fato de que hoje a sociedade está limitando mais a sua prole e as mulheres que não almejam ter muitos filhos.

A médica cita ainda que o número crescente de laqueaduras deve-se também a sensação de segurança do método, bastante eficaz, apesar de não garantir 100% a ausência de gestação. Cinco a cada mil mulheres que fazem laqueadura, podem engravidar.

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